sábado, 7 de novembro de 2015

O Minino



O minino nasceu, o minino chorou
O minino fez cocô em suas fraldas
E se escondeu atrás das portas
O minino teve medo, merecido
O minino leu
E aprendeu a jogar pedra em tamarindo
E, indo, continuou rindo e findo nunca fora
O minino namorou e se esqueceu
E se lembrou de nunca ter-se esquecido
E relembrou... o minino
O minino, então, cresceu
Cozinhou feijão e arroz
Namorou mais um ‘cadinho
Animou festa a violão
Recitou poemas lidos, lindos
Mas enquanto ele crescia o coração ia... diminuindo
E estranhou  a pouca gente que cabia
Quando antes era tão... grande
Grandíssimo engano do homem
Não ser responsável pelo eterno minino
Afinal de contos,
Maior que sua barba, sua casa, seu Berlingo
Maior que a história de todos os hinos

Existe a história da mãe do minino!




sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Doce d'ocê... (Dona)



O doce d'ocê, Dona
Mais dos 'óio' que de boca
Mas, se da boca ceda logo
E que logo seja antes:

Que destrance outra trança
Que desate outro ato
Que Suassuna seja moço
Que minha sina, Sancho Panza

É cedo pr'ocê, Dona?
É doce e cedo pra tudo.
Mas de cedo pr'o caduco faz-se um pulo.

Assim, arrisco um risco arisco
Pra não perder essa palavrinha

Pra não ser dor o que não é minha...



segunda-feira, 12 de outubro de 2015

No alto da parede havia um velho



No alto da parede havia um velho
Eu que sempre achei que ele estava a flutuar
Havia um velho que previa alguns destinos
Tragava seu cachimbo
Uma névoa que escorria dos cabelos
Neblinava o quadro inteiro
E se extendia na parede
Só não diafanava a cor dos olhos
Olhos negros,
E a casca que mostrava a existência de algum ser
Como um balão,
Que se enchia de invisível.

Havia lá no alto da parede um preto velho
E a parede tão mais alta àquele tempo
 O olhar em diagonal
Era como um desvio surpreendido
Apreendendo o meu pulo de janela
Pro jardim...
Aquela névoa, agora em mim,
Esmiuçava cada canto das paredes do meu corpo
Agora em mim, atribulava o choro espanto
Até que eu tentava enganar o seu olhar

Parecia cada vez mais estar em todo canto:
Na casa da senhora que vendia quente leite
Na casa do senhor que colhia leve algodão
Na casa da senhora que tosa, da cabra, a lã
Na casa do senhor que cultiva arroz em grão

E a névoa tinha hálito de cachaça
Transparente
E o olhar que trespassava toda casa
Indescente

No alto da parede ali em mim havia um velho
Que olhava o outro velho da parede sobre mim
Habitava muitas casas sem parede nem jardim
E emparedava, com seus relhos, muito velhos
Muitos velhos

No alto da parede branca havia um preto velho
Que olhava o branco-preto do pretérito
Imperfeito de vermelho no brelho do tal jardim
E agora em mim, fora o jardim, o brelho, o velho,

O branco-preto do teu relho muito velho, muitos velhos




domingo, 7 de junho de 2015

Quadro à Gis

Ela é ele
E é gis
no quadro de meus dias
E que
mas que
desenquadra
desmoldura
e neva pó de cor
do risco
pó de cura

E é quadro
mas Dança
                               [Quarilha em pas du deux
                                                        shimmie invertido]
E que
mas que
desfronteira
deslimite
e neva novamente
novamente
quente
quente
quente
que nem licor de rosa
que nem nada
que só tu

Ela é tu



segunda-feira, 13 de abril de 2015

iHasta la vista, Galeón!

Galeano, meu querido!

Logo agora que me reaproximava de ti, não pelo Uruguai, via distante por enquanto, mas daqui mesmo, do pequeno quarto que me cabe, com Curisco me arregalando o olho; dois.
Daqui: da cama e do teto. E do ventilador!

Mas há uma simbologia cósmica carregada de ironia; não haveria melhor hora...

Ontem li uma matéria sobre o neo biocentrismo, uma visão científica segundo a qual a alma ou a consciência humana, após a morte, seria liberada dos "microtúbulos das células cerebrais que são os sítios primários de processamento quântico".

Tudo bem...

Recorro, não aos bolsos, ou Bolsonaros,
mas sim, e também, aos Abraços daquele livro, e ao primeiro micro-conto, "O mundo":

"Um homem da aldeia de Négua, no litoral da Colômbia, conseguiu subir aos céus.
Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas.
- O mundo é isso - revelou - Um montão de gente, um mar de fogueirinhas.
Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo."


Eduardo?!

..Ardo...




sábado, 11 de abril de 2015

Todo cú será vedado!

Vê!
Dado o fato, é improvável que não possamos...

Vê?!
Admite o alto da tua grandeza.
Admira a força da superioridade.

Percebe a minúcia da contração de cada músculo em cada riso.
Percebe?!

Encolhe-te diante do concreto que se concretiza a 1Km dos pés... vertical!
Espanta-te diante destas pontes sobre os mares, sob os mares.
Encanta-te com as imagens do espaço, enviadas do espaço.

Isso!
Alimenta-te com o pão e com os jogos de Roma, com as conquistas de além-mar, com as nossas descendências, ascendências isso! empanturra-te com estas letras que me saem, burocracias, instituições, com as preciosidades bélicas, com o cientificismo nazista, com a penicilina os coquetéis e a anestesia vai! nutre-te com a camisinha com os lisérgicos a computação gráfica a arte o troféu o prêmio de melhor ator o Oscar o Nobel um Niemeyer um Médici a medicina isso! enche-te dos aviões das corporações dos Ubiratans da comunidade carcerária da alfabetização acelerada da delação premiada dos bons números da grande audiência isso! com as palmas as palmas... enobrece-te pois acaba de ser decretado:


- Todo cú será vedado!




sábado, 14 de março de 2015

Aniversariando, caro poeta?!
Posso dizer que

vim quase de lá e quase cá cheguei...

Deixo, então, uns versos 
para que não  me acuses.
Não há incesto se ponho 
tua palavra em minha boca

oca

olha só
abrigo-me na albergaria de teu Hóspede
sem que peças um só grão de sal raro

"Onde vais, estrangeiro? por que deixas
O solitário albergue do deserto?
O que buscas além dos horizontes?
Por que transpor o píncaro dos montes,
Quando podes achar o amor tão perto?

[...] Onde vais, estrangeiro? [...]
Queres voltar a este país maldito
Onde a alegria e o riso te deixaram?

[...]

No entanto Ele partiu!... Seu vulto ao longe
Escondeu-se onde a visão não alcança...
...Mas não penseis que o triste forasteiro
Foi procurar nos lares do estrangeiro
O fantasma sequer de uma esperança"

Deixo aqui teu verso alvo, Alves
Alvo azul de raro céu, Cecéu!



quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Tudo acontece no fechar dos olhos


Havia sempre um tremor em suas mãos...
A convulsão em mim sempre foi Tchekoviana.
Quando fecho os olhos abro um universo de possibilidades
Abro um vento que corre, magneticamente, rente aos meus pêlos
Abro mesas, bancos, paredes azulejadas, rejunte branco
Quando fecho os olhos a imensidão de todos os mundos se abre
Abre-se o subir de escadas
[Porque sempre menciono as escadas?]
Abro-me à subida... ao seu encontro
Ao último andar de uma instituição falida
Abro gritos de ânsia jovem
Tudo é jovem
A manhã, os passos, o conhecimento
Só os meus olhos envelheceram
Vejo uma tecnologia remota num visor abóbora
E uma abóbada encantada com lustres sinceros
Abro o suor ensopando a camisa
E outros líquidos de baixo ventre
Abro um ventre e um tremor de pernas que quase impede a vertical
Abro grades e portas de banheiros imundos... e alegres... e brancos
[Abro incômodos]
Abro tantos recônditos, um livro, uma biblioteca
[Havia o cara do café, o cara do tibelo
Havia o uniforme...]
Abro mais portas de ante-sala, sobre-sala, sobressaltos
Abro sob carambolas e sobre todos, pertinho do céu
Tudo quando fecho os olhos
Quando a luz vai sumindo no reflexo dos cílios
e sou invadido por uma escuridão límpida e me sinto em casa
às vezes estranho-me, como um móvel muito usado e, agora, quebrado
Mas, em casa
Quando fecho os olhos abro uma escuridão de cores vivas
Abro uma inequação nunca aprendida
Abro canções, coelhos, púbis
Abro cobertores, piscinas e fogos de artifício
Abro a queda rente ao mar
Quando fecho os olhos abro fotos e vaporizo-me
É uma escuridão infinita
É espaço ampliado dentro do peito que o coração até pensa em explodir
Mas é o próprio e mais temido anti-bombas.
Abro bolinhos de chuva e tardes de sofá
Abro transportes clandestinos e viagens clandestinas
[O Estado não prioriza o encontro nem a madrugada;]
e povôo mundos quando fecho os olhos;
[Há somente inconformidades, distâncias e dicotomias
e grades. Sempre há muitas grades.
Mas ele sabe que não há nada que impeça]
o meu fechar de olhos.
Somente eu abro meus olhos e fecho os pés.
Havia, quando fecho os olhos, um dormir esquecido nos ombros
Quando fecho os olhos surpreendo a luz!