No alto da parede havia um velho
Eu que sempre achei que ele estava a flutuar
Havia um velho que previa alguns destinos
Tragava seu cachimbo
Uma névoa que escorria dos cabelos
Neblinava o quadro inteiro
E se extendia na parede
Só não diafanava a cor dos olhos
Olhos negros,
E a casca que mostrava a existência de algum ser
Como um balão,
Que se enchia de invisível.
Havia lá no alto da parede um preto velho
E a parede tão mais alta àquele tempo
O olhar em diagonal
Era como um desvio surpreendido
Apreendendo o meu pulo de janela
Pro jardim...
Aquela névoa, agora em mim,
Esmiuçava cada canto das paredes do meu corpo
Agora em mim, atribulava o choro espanto
Até que eu tentava enganar o seu olhar
Parecia cada vez mais estar em todo canto:
Na casa da senhora que vendia quente leite
Na casa do senhor que colhia leve algodão
Na casa da senhora que tosa, da cabra, a lã
Na casa do senhor que cultiva arroz em grão
E a névoa tinha hálito de cachaça
Transparente
E o olhar que trespassava toda casa
Indescente
No alto da parede ali em mim havia um velho
Que olhava o outro velho da parede sobre mim
Habitava muitas casas sem parede nem jardim
E emparedava, com seus relhos, muito velhos
Muitos velhos
No alto da parede branca havia um preto velho
Que olhava o branco-preto do pretérito
Imperfeito de vermelho no brelho do tal jardim
E agora em mim, fora o jardim, o brelho, o velho,
O branco-preto do teu relho muito velho, muitos velhos