sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Doce d'ocê... (Dona)



O doce d'ocê, Dona
Mais dos 'óio' que de boca
Mas, se da boca ceda logo
E que logo seja antes:

Que destrance outra trança
Que desate outro ato
Que Suassuna seja moço
Que minha sina, Sancho Panza

É cedo pr'ocê, Dona?
É doce e cedo pra tudo.
Mas de cedo pr'o caduco faz-se um pulo.

Assim, arrisco um risco arisco
Pra não perder essa palavrinha

Pra não ser dor o que não é minha...



segunda-feira, 12 de outubro de 2015

No alto da parede havia um velho



No alto da parede havia um velho
Eu que sempre achei que ele estava a flutuar
Havia um velho que previa alguns destinos
Tragava seu cachimbo
Uma névoa que escorria dos cabelos
Neblinava o quadro inteiro
E se extendia na parede
Só não diafanava a cor dos olhos
Olhos negros,
E a casca que mostrava a existência de algum ser
Como um balão,
Que se enchia de invisível.

Havia lá no alto da parede um preto velho
E a parede tão mais alta àquele tempo
 O olhar em diagonal
Era como um desvio surpreendido
Apreendendo o meu pulo de janela
Pro jardim...
Aquela névoa, agora em mim,
Esmiuçava cada canto das paredes do meu corpo
Agora em mim, atribulava o choro espanto
Até que eu tentava enganar o seu olhar

Parecia cada vez mais estar em todo canto:
Na casa da senhora que vendia quente leite
Na casa do senhor que colhia leve algodão
Na casa da senhora que tosa, da cabra, a lã
Na casa do senhor que cultiva arroz em grão

E a névoa tinha hálito de cachaça
Transparente
E o olhar que trespassava toda casa
Indescente

No alto da parede ali em mim havia um velho
Que olhava o outro velho da parede sobre mim
Habitava muitas casas sem parede nem jardim
E emparedava, com seus relhos, muito velhos
Muitos velhos

No alto da parede branca havia um preto velho
Que olhava o branco-preto do pretérito
Imperfeito de vermelho no brelho do tal jardim
E agora em mim, fora o jardim, o brelho, o velho,

O branco-preto do teu relho muito velho, muitos velhos