Havia sempre um tremor em suas mãos...
A convulsão em mim sempre foi Tchekoviana.
Quando fecho os olhos abro um universo de possibilidades
Abro um vento que corre, magneticamente, rente aos meus
pêlos
Abro mesas, bancos, paredes azulejadas, rejunte branco
Quando fecho os olhos a imensidão de todos os mundos se abre
Abre-se o subir de escadas
[Porque sempre menciono as
escadas?]
Abro-me à subida... ao seu encontro
Ao último andar de uma instituição falida
Abro gritos de ânsia jovem
Tudo é jovem
A manhã, os passos, o conhecimento
Só os meus olhos envelheceram
Vejo uma tecnologia remota num visor abóbora
E uma abóbada encantada com lustres sinceros
Abro o suor ensopando a camisa
E outros líquidos de baixo ventre
Abro um ventre e um tremor de pernas que quase impede a
vertical
Abro grades e portas de banheiros imundos... e alegres... e
brancos
[Abro incômodos]
Abro tantos recônditos, um livro, uma biblioteca
[Havia o cara do café, o cara do
tibelo
Havia o uniforme...]
Abro mais portas de ante-sala, sobre-sala, sobressaltos
Abro sob carambolas e sobre todos, pertinho do céu
Tudo quando fecho os olhos
Quando a luz vai sumindo no reflexo dos cílios
e sou invadido por uma escuridão límpida e me sinto em casa
às vezes estranho-me, como um móvel muito usado e, agora,
quebrado
Mas, em casa
Quando fecho os olhos abro uma escuridão de cores vivas
Abro uma inequação nunca aprendida
Abro canções, coelhos, púbis
Abro cobertores, piscinas e fogos de artifício
Abro a queda rente ao mar
Quando fecho os olhos abro fotos e vaporizo-me
É uma escuridão infinita
É espaço ampliado dentro do peito que o coração até pensa em
explodir
Mas é o próprio e mais temido anti-bombas.
Abro bolinhos de chuva e tardes de sofá
Abro transportes clandestinos e viagens clandestinas
[O Estado não prioriza o encontro
nem a madrugada;]
e povôo mundos quando fecho os olhos;
[Há somente inconformidades,
distâncias e dicotomias
e grades. Sempre há muitas
grades.
Mas ele sabe que não há nada que
impeça]
o meu fechar de olhos.
Somente eu abro meus olhos e fecho os pés.
Havia, quando fecho os olhos, um dormir esquecido nos ombros
Quando fecho os olhos surpreendo a luz!